Publicado por: Priscilla Leonel | Dezembro 1, 2009

As praças de Trianon

A obra de Roldão Arruda e a resistência do preconceito que mata as minorias

Eram meados dos anos 80 e São Paulo transpirava conceitos estigmatizantes e preconceituosos, há muito engolidos pela sociedade. Sob um contexto de transição política, uma onda de assassinatos tomava conta de uma região específica da cidade, conhecida por Trianon, localização especialmente freqüentada pelos chamados michês, homens que vendiam serviços sexuais. À mercê da presença desses profissionais do sexo, Trianon era, por sua vez, ponto de encontro de homossexuais, muitas vezes endinheirados, que buscavam companhia masculina – eis o cenário da história que o jornalista paranaense Roldão Arruda desvenda em seu livro Dias de Ira – Uma história verídica de assassinatos autorizados (Editora Globo, 312 páginas, 2001, R$ 25,00).

Sempre voltado para questões diretamente ligadas aos Direitos Humanos, o repórter atravessou uma saga para dar formato à sua obra. A princípio, seu interesse estava em traçar o perfil de vítimas de crimes de intolerância, todos relacionados à questão homossexual. No entanto, sendo constantemente rejeitado pelos possíveis entrevistados, grupo formado por familiares e amigos de diversas vítimas feitas desde a década de 80 – que, reprimido pelo preconceito não se sentia confortável em expor seus laços com homossexuais, optando pelo silêncio –, Arruda acabou por restringir sua pesquisa ao famoso caso de assassinatos em série promovidos pelo michê Fortunato Botton Neto, mais conhecido como Maníaco do Trianon.

Nada menos especial foi feito por conta da necessidade do jornalista em afunilar seu trabalho. O autor conseguiu, munido de inquéritos policiais, processos, livros especializados, jornais da época e alguns depoimentos oficiais, reconstituir, de forma intrigante e cheia de suspense, grande parte da triste história daqueles que figuravam na lista de mortos feita por Botton – com especial enfoque em 4 das 10 vítimas aparentemente feitas pelo serial killer: um decorador, um diretor de teatro, um professor e um psiquiatra, todos homossexuais.

Mais do que apenas descrever os cenários, o “modus operandi” e as peculiaridades dos assassinatos cometidos contra essas vítimas pelo garoto de programa, Roldão Arruda expõe, em sua obra, os hábitos da comunidade homossexual da década de 80; levanta questões relacionadas à identidade do assassino; investiga até que ponto as suspeitas dos delegados se baseavam realmente nos fatos ou na pressão que a sociedade fazia sobre a polícia – e de forma apressada – em fazer de Botton, indivíduo que causava dores de barriga no seio de uma cidade ainda repleta de conceitos discriminatórios, a “estrela do mal”.

Além disso, Arruda relembra a cobertura feita pela mídia, que, à época, tratava de forma sensacionalista os detalhes dos homicídios, por conta da característica homossexual das vítimas e do assassino – além da forma como esta, sem grandes êxitos, parecia disfarçar, numa execração deliberada contra Botton, o preconceito existente naquela sociedade.

Fazendo ligações perspicazes e tomando túneis que sempre o levavam à porta do preconceito, o autor acaba por também expor, em sua obra, uma tese própria, onde aponta no episódio não a existência de um ato isolado, vinda de um criminoso que se utilizava requintes de crueldade, mas a existência de um fenômeno social. Ou, como melhor coloca Gilberto Dimenstein, jornalista brasileiro que assina a orelha da obra, Arruda foi capaz de encontrar “nos olhos de quem virou número perdido num almoxarifado o rosto de uma sociedade”, o que torna grandiosa a publicação.

O preconceito que atravessa as décadas

A discriminação contra os homossexuais não é privilégio das antigas décadas. Ainda hoje, centenas deles são excluídos, agredidos e assassinados todos os dias por grupos intolerantes. De acordo com uma das pesquisas anuais divulgada em abril pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), o número de crimes contra a vida cometidos contra homossexuais aumentou 55% no ano passado, em relação a 2007.

Considerada a mais antiga e respeitada entidade do gênero, o GGB atestou o assassinato de 190 homossexuais no último ano, o que caracteriza um quadro de um assassinato a cada dois dias, onde a maioria das vítimas é formada por jovens michês, professores, cabeleleiros e ambulantes.

De forma impressionante, os dados da pesquisa acabam por relembrar o caso apresentado em Dias de Ira ao revelar que a maioria das vítimas são geralmente feitas dentro de suas próprias casas, geralmente estranguladas, por um grupo de sujeitos, em sua maioria, formado por jovens garotos de programa ou vigilantes noturnos, exatamente de acordo com o perfil apresentado pelo serial killer Botton, em 1989.

Igualando ainda mais os dados da década atual com os da época dos assassinatos em série descritos por Arruda, uma pesquisa divulgada em 2000 pela Comissão Internacional de Direitos Humanos voltados para gays e lésbicas apontou São Paulo como líder, pelo quarto ano consecutivo, da lista das cidades que registravam o maior número de assassinatos contra homossexuais.

Contudo, mais que São Paulo, os Estados que mais chamam a atenção mundial em números de homicídios contra atualmente são Sergipe e Pernambuco. Sergipe, por exemplo, foi considerado, em 2008, o estado que ofereceu “maior risco de morte para travestis e gays em termos relativos, já que, contando com aproximadamente 2 milhões de habitantes, registrou 11 homicídios”, de acordo com o relatório do GGB.

Nessa linha, os números apontam o Nordeste como foco no que concerne a preocupação mundial sobre a homofobia. A região, por abrigar 30% da população brasileira, acabou por registrar 48% de assassinatos em 2008, elevando para 84% o risco de um homossexual nordestino ser a próxima vítima do crime de intolerância, representando a resistência do preconceito no país. Este pulsa, ainda – e de forma maior (embora em tons mais velados, assim como com as demais formas de preconceitos existentes atualmente) –, fazendo urgir a realização de trabalhos de conscientização dirigidos às comunidades diversas – trabalhos estes tão opacos ainda no Brasil.

Torna-se essencial, ainda, para efeito de conscientização, essa crescente busca pelo conhecimento do perfil dos assassinos de gays, lésbicas e travestis, com objetivo de prevenir essa tendência intolerante revelada maior a cada ano. É preciso sanar também, de outro lado, a grave lacuna que se abre no que se trata da apuração dos jornais em relação ao tema, já que revelam e possuem irrisórios dados sobre esses crimes, vez que ainda hoje grande parte da comunidade gay teme se revelar para a sociedade – fato que torna, inclusive, a apuração dos crimes pela polícia quase impossível, da mesma forma que quase se revelou a Arruda, em sua obra – salva pelas 3.300 páginas de arquivos do judiciário e demais fontes que possibilitaram seu brilhante trabalho.

Não obstante tais lacunas, faz-se necessário, novamente, manter o foco não apenas na conscientização do grupo GLBT, das associações que comparecem com suas pesquisas com rigidez, servindo de utilidade pública, mas de toda a sociedade, para que a homofobia seja vista, de uma vez por todas, como resquício e praga dos tempos não modernos.

Publicado por: Priscilla Leonel | Junho 24, 2009

Doc. Tribos Urbanas.

Eis, abaixo, nosso documentário-amador já editado, dividido em três partes:

Publicado por: Priscilla Leonel | Maio 15, 2009

Perfil de Lélia Charliane

lelia1Moradora da Ceilândia, Lélia Charliane, reconhecida dentro de sua comunidade e dentro do Movimento Negro da capital – recentemente também encontrada nos ambientes alternativos da cidade – tem atraído a atenção dos plano-pilotenses.

Nascida de braços dados com a volta da democracia Brasileira, em março de 1985, Lélia é, de forma curiosa, uma intelectual. A um passo de se tornar historiadora pela Universidade de Brasília, é também Rainha de Bateria e filha de mãe solteira, num histórico familiar onde “pai parece ser artigo de luxo” – ironiza a própria, apelidada “Chispita” pela avó baiana, que também fora Rainha de bateria de escolas de samba de Brasília no passado.

Influenciada pela luta de vida de seu tio e a figura amorosa de sua mãe, Lélia resolveu traçar uma outra história para si: há alguns anos a passista deixou tudo o que vivia – o contato com os amigos, o samba, o namoro e sua própria realidade – e decidiu fazer valer o cursinho pré-vestibular que seu tio pagava. Estudou todos os dias, inclusive aos finais de semana, acabando por adoecer e passar por sérias crises nervosas – as quais lhe renderam, na época, uma sobrancelha a menos.

Vitoriosa, pôde, enfim, após anos de estudo, ingressar numa faculdade pública. Saudava, a partir dali, a possibilidade de não ter que se submeter a subempregos para sempre, e também a possibilidade de trazer mais conforto à sua mãe e sobrinha, através de um outro sonho – que era estudar História um dia.“Ela é estudiosa, corre atrás de tudo que almeja, sempre muito objetiva com os seus sonhos – e tem um senso de responsabilidade muito grande com a sua família” – diz a amiga Andressa Marques.

Hoje, quase diplomada pela UNB, militante do Movimento Negro, no quadro do Núcleo de Documentação Jornalística do Correio Brasiliense e apaixonada por estudos da época ditatorial do Brasil, ela encanta com sua inteligência, aliada à sua beleza, sobriedade, bom humor e cultura – se postando em qualquer lugar com a humildade e fortaleza de quem viveu de perto a pobreza e as histórias de crimes freqüentes da cidade – e com a racionalidade, humor e elegância solidificados na postura de quem não subestima uma outra realidade, menos ou mais alienada, onde também se insere hoje, afinal.lelia2

“Somos amigas, historiadoras, da mesma idade, trabalhamos no mesmo local, estudamos na mesma Universidade e, ao mesmo tempo, somos diferentes. Ela, envolvida com o movimento negro, com as escolas de samba de Brasília, moradora da Ceilândia – a pessoa que amplia meus horizontes, me abre para uma nova percepção de realidade” coloca a amiga Jaqueline Lisboa.

Perguntada sobre algo que ela gostaria de ter, respondeu: “olha, sinceramente, não sei. Eu gosto de samba – e sou rainha de bateria. Queria estudar história – me formarei em história. Queria namorar – namorei horrores. Queria ser solteira – sou a solteirona do pedaço. Queria me assumir afro – sou a pretinha black-power mais feliz que eu conheço. Não consigo me lembrar de nada que eu queira fazer e não faça – a não ser aquilo que é limitado pela grana: como ir à Cuba ou viver um grande amor no Himalaia, sei lá”.

Fica, então, aqui, uma reverêcia, “sei lá”, àqueles que, como ela, conseguem a sensibilidade de transformar a realidade em várias, ao mesmo tempo, de maneira doce e alegre – sem deixar de ser realista.

Publicado por: Priscilla Leonel | Maio 8, 2009

A mídia omissa

Num momento onde se discute tanto a mídia como omissa frente aos escândalos originados nesse nosso governo de merda (seja por medo ou por interesse pessoal – mas ambos sempre vinculados ao capital), o Jornalista Prates, alterado por natureza, se difere. Brega ou bacana?:

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